A vida é breve. Estou falando da minha vida. Passou muito rápido. Ontem eu nasci; hoje morro. Quantas voltas no relógio desde o momento em que nasci? Naquele momento dos olhares incompreensíveis de piedade (todos têm piedade dos recém-nascidos). Todas as crianças choram quando nascem, mas poucos sabem o quê é a dor do nascimento. Tão cruel. Igual a dor do parto para as mães. Mas a dor do nascimento nós esquecemos, tão desproporcional ela é para a vida. O nascimento não é uma coisa fácil. Viver também não. A minha vida, nada breve vida, parece uma eternidade. Viver deveria ser uma questão de tempo, não de oportunidades. E quanto tempo ainda eu posso olhar pela janela e me arrepender das coisas? Inútil. Só nos arrependemos do que não fazemos. O tempo passado das coisas é nossa maior fraqueza: somos derrotados pelos dias que se foram.
Estou cercado por paredes brancas. Mas elas não me deprimem. Elas são esperanças da minha libertação. Vivemos pela liberdade. Mas não a temos. Poucos são livres para fazer o que bem entendem. Na nossa ignorância, de não fazer parte do entendimento das coisas eternas, estamos presos. Presos ao emprego, ao nome e número da identidade. Eu estou no sobrenome e tudo que ele carrega: prestigio e uma história de conquistas. Diferente do meu avô, e até mesmo do meu pai, eu não conquistei nada. Não deixei meu nome cravado na imensidão das eras. Preso ainda ao namoro desde a adolescência e a mulher que eu amava e não tenho mais. Preso às explicações sobre isso tudo em minha vida, pensando que tudo tem explicação. Não existem desculpas para a vida, ela nunca é culpada.
Preso entre essas paredes brancas.
Até quando o meu corpo poderá voar? Até quando sentirei esse calafrio das coisas acabando para sempre? Nós, os céticos; não sofremos. E visto: não esperamos por nada, nada queremos. Mas o corpo voa e eu não sei até quando. Ele sente frio, fome e sede. Preso aqui, mas liberto no futuro. O que serei tão incompleto lá na frente que não conheço? Sentirei falta dos alimentos sólidos? Beberei água filtrada? Nunca mais vou tomar banho de chuva. Lembro quando era pequeno, logo depois de ter nascido: espiga de milho cozido, café fraco e doce; e o banho de chuva. Perderei os dentes com a velhice, mas sobrará o céu da boca.
E o tempo passa. Tão breve. Soubesse como a vida é breve, não seria uma breve vida. Lapidar as palavras no túmulo é coisa para filósofos. Não sou um deles, não sou nada. Não carrego o nome digno de nenhuma coisa que fiz ou faço. E, se não errei muito, também pouco arrisquei. Se eu for para o céu, pode ser por merecimento vago. Não teriam, todavia, como me levar para o inferno nas condenações imprudentes. Estaria eu já errando numa lógica excludente? Os poetas também adoram esses jogos de palavras: rimas podres. Serei salvo pela inoperância do bem ou por fracassar no mal? Não sei ainda, estou apenas num quarto de paredes brancas, tentando ser livre.
E os ponteiros marcam a mesma cena de ontem: o gosto do remédio e a desatenção dos enfermeiros. Eles precisam de uma dose do esquecimento do que é ser humano. Precisam do afastamento para que não morram junto com seus pacientes, pouco a pouco; inconscientemente.
Bruna disse que choraria por mim quando eu morresse.
Construo os pensamentos com matéria-prima irreal, dispersa e involuntária; escondida nas entranhas das diversas mobílias desse quarto. Um pouco do amor no guarda-roupa. Minhas conquistas no criado mudo, minha vitória nas gavetas. Todos são fragmentos de uma vida sem história. Eu me formando agora, deformado. Querendo, pela lucidez de vocês, que me vejam e entendam. Eu fracassei em saber o que eu quero e para onde eu vou: o descaminho. Não vou para lugar nenhum agora. O tempo é curto. E mesmo assim, ainda que não tenha nenhuma vontade de escrever e falar sobre mim, estou aqui por inteiro. Vocês sabem o que querem? Vocês sabem sobre a felicidade? Não quero pensar sobre essas coisas, por isso proponho: a reflexão, a inquietude e a desilusão. Mantenham a resposta em segredo, manterei as minhas também.
Bruna entra no quarto. Hoje é segunda-feira.
Bruna cabelos longos e pretos. Ela cortou as pontas há três dias. Ficou melhor, mais jovem. Olhos castanhos escuros. A mão sempre leve e suave. O sorriso? Como pode manter o sorriso por tanto tempo? E mais: como pode sorrir com tantas coisas adversas? Ela sorri sempre. Sorriso lindo. Sorri com os dentes brancos. Sorri da minha piada, da minha reclamação e da minha dor. Sorri da minha saudade. Dos meus amores. Sorri de tudo em mim, por mim e para mim. Abre a janela do quarto, como se eu precisasse de mais luz.
“Como você está hoje?”
Ela perguntava mesmo sabendo que eu não iria responder. Estou impossibilitado. Voando. Lembram? Meu corpo ao seu lado. Abraço Bruna de forma carinhosa. Queria poder fazer um jantar para ela. Você bebe vinho, Bruna? Sabe, tenho vinho em casa. Ora, ora. Não sou mais o mesmo. Eu me considerava um galanteador antigamente. Hoje não consigo me aproximar da garota que conhece minha intimidade: ela me dá banho e limpa minha pele. Queria perguntar se ela acredita. Acreditar, meu verbo sem complemento. Acredita, Bruna? Não precisa dizer em que, mas apenas acredite. Sua resposta para mim é suficiente. Verbo intransitivo. Acredita que eu possa sair daqui? Acredita que eu possa encontrar um amor? Acredita que eu possa ser feliz? E assistir um filme americano? Acredita? Aceito o que você responder.
“Conversei com o médico. Ele disse que você está respondendo bem ao tratamento. Sabe? Acreditamos que você está conseguindo ouvir o que estamos dizendo. Não parece incrível? Eu aqui conversando com você. Querendo contar minhas coisas. Você está respondendo? Eu sei que deve estar respondendo. Devemos essa conversa um para o outro: você paciente e eu enfermeira. Sabe que eu larguei o meu namorado? Depois e conto. É uma história incrível. Bem, você também deve ter uma história fascinante, não? Quando puder, conte para mim?”
Bruna tinha olhos castanhos. Disse isso? Odeio ficar sem televisão. Não tenho mais assunto. Já disse que estou apaixonado pela Bruna? Ela é linda, maravilhosa e cheirosa. Bom, suponho que ela seja cheirosa. Não consigo ver o seu corpo, ela se esconde do raio da visão. Seu rosto. A única coisa que eu vejo são seus olhos, seus cabelos e seu sorriso. Já disse sobre o sorriso? Odeio ficar sem televisão. Ela levanta minha perna, passa um líquido. Um banho com um pano molhado e uma bacia de plástico. Merecia coisa melhor no final da minha vida. Acredita, Bruna? Eu acredito em você. Então ela troca minha roupa.
Por instantes sinto vergonha da minha nudez tão passiva.
Noite de chuva. Noite do meu casamento. Bobagem pensar que na vida tudo pode dar certo. Algumas coisas nascem do acaso. Acaso não é ruim, não é coisa que devemos temer. Exatamente pelo acaso não escolher sua vítima. É impessoal. Ele apenas é. Pode ser com você, pode ser com outra pessoa. A chuva, o carro e o atraso no dia do meu casamento foram comigo, infelizmente. Um acaso. O carro patina. O carro derrapa. O carro encontra um caminhão também desgovernado. Olhamos o acaso. Meu carro bate com toda força, meu corpo voa. Já disse que ainda me sinto como se estivesse voando? Caio no asfalto, vou nadando por alguns metros. Não nadando literalmente. A poça de sangue com a poça da chuva. Lembrei de quando eu era pequeno e tomava banho de chuva.
O caminhão desgovernado cai. O motorista morre.
Eu vivo como numa espécie de morte também. Só me resta a lembrança. Foi tão breve o acidente, tão rápido; um instante estava tudo bem. Depois, nada. Escuto as sirenes antes de dormir um sono profundo. Era como se eu não existisse mais. Sonho de todo cético: morri para sempre, eu pensava. Quer dizer, eu não pensava. Pensei nisso apenas quando acordei, quando voltei, de repente, sentido um cheiro forte de café e de flores. O café era pura imaginação, mas as flores minha mãe quem trouxe. Onde ela está agora? Eu acordei confuso. E demorou um pouco para que eu compreendesse o meu estado de não estar. Minha voz silenciosa apenas na cabeça. Meus olhos que não se mechem, mas que continuam num ponto fixo, imóvel; numa rachadura na parede. Minha mente ativa e impenetrável.
Era o dia do meu casamento. Letícia devia estar linda no altar. Ela quis a igreja, pensou nos preparativos; escolheu a decoração. Letícia não é menos bonita do que Bruna. Da Letícia eu não dependo minha vida. Deve existir alguma explicação para isso, dessa cumplicidade no desastre virar amor. Nem lembro da Letícia, não sei que dia ela irá aparecer aqui; ela já veio uma porção de vezes. Mas a Bruna, eu conto os dias. Conto as horas. Difícil saber de tudo isso quando a única coisa que eu vejo é uma rachadura na parede. Algumas vezes eu vejo o Sol e os pássaros. Adamastor quem me leva para um passeio para fora daquele lugar.
Não é perigoso que eu fique no Sol sem proteção?
Perigoso é viver.
Então, Letícia no altar. Ali também o padre e os padrinhos. Espalhados pela igreja todos os convidados. O que pensaram naquela noite escura e triste de outubro? Pensaram que eu estava bêbado e que me perdi no caminho? Não sabiam onde eu estava. Na verdade souberam que eu estava no hospital apenas no dia seguinte, quando meu sogro soube do acidente. Antes eles apenas confabularam: desistiu do casamento, coitada da Letícia. Letícia devia ter aberto os presentes naquela noite; mas quis devolver tudo.
Letícia chega ao apartamento. Um cheiro de tinta, de coisa fresca. Ela chora a noite inteira. O abandono. Ainda era apenas um abandono de um noivo confuso. Não dormiu, mas sonhou com minha traição. Só podia ser outra mulher, ela pintava na parede o quadro escuro. Remédio para dormir. No outro dia o telefone toca: desistiria das desculpas? Me perdoaria? Não era minha voz, mas uma voz também triste. O noivo estava no hospital, sem qualquer chance e esperança.
Bruna ainda acredita que eu possa voltar a viver.
Hoje é dia da mulher. Não existe calendário. Não consigo saber que dia estamos, nem quanto tempo estou deitado aqui. Mas tenho certeza que é dia da mulher. Mandaria flores para Letícia, com um cartão com alguns dizeres bonitos; um convite para jantarmos. Não pode ser dia da mulher, está chovendo. Adamastor se esforça para me colocar numa maca, caminha comigo para fora daquele quarto. Todos acreditam que isso ajuda minha recuperação. A verdade é que eles não fazem a menor idéia do quê passa na cabeça de um sujeito que está no mesmo estado que eu. Odeio o Sol, mas também não me sinto bem com a chuva.
Adamastor me deixa num canto. Eu olhando para os pingos enquanto ele conversa com uma garota. Como eu disse não posso me movimentar, então suponho que seja uma garota. O quê eles estão conversando? Adamastor não é casado. A garota, que deve ser uma enfermeira, uma assistente; ou alguém que trabalha na secretaria do hospital, também não é casada. Tudo suposição, tudo invenção. Não ligo para eles, e se estão tendo um caso extraconjugal. Conversam, conversam; algumas vezes umas risadas mais histéricas. Odeio mulheres com risadas histéricas (Bruna apenas sorri). Letícia raramente ria. Letícia não parecia feliz, mas era. Pelo menos era isso que me dizia cada vez que fazia a pergunta.
Quero voltar para o quarto. Pior aqui. Acho que eu não devia ter começado essa história. Não tenho a menor vontade de terminá-la. Na verdade eu sei que ela não irá acabar bem, por isso prefiro evitá-la. Como evitar a vida? Tem gente com a resposta na ponta da língua, como se realmente fosse fácil à brevidade das coisas. Não é. Tenham certeza. Até o último momento decidimos que podemos buscar o melhor caminho. Podemos. Podemos, mas não queremos. Pois em nosso comportamento damos valor ao acessível, ao rápido; ao indolor. A vida, todavia, é cheia de dores. Mas essas dores não são suficientes para danificar, agredir ou abreviar qualquer existência; mesmo quando a idéia se instala nos pensamentos; na hora do banho ou quando estamos bêbados. Minha vida agora está isenta de dores físicas.
Adamastor me leva para dentro. A alegria em seu rosto é pela conversa com a garota. Homem cheio de esperança fica com um olhar diferente. Um olhar afeminado. Um olhar com brilho de sonhos de princesas. Homens também pensam em princesas presas em castelos. Ponho a armadura, subo no cavalo. Nunca andei de cavalo, e prometo que se sair daqui com vida será a primeira coisa que vou fazer. Sim, a vida é cheia de tormentos; mas quão grande as pequenas coisas que nos dão alegria. Andar de cavalo. Comer espiga cozida com muito sal. Café fraco. Tomar banho de chuva.
Chegamos ao quarto e as paredes brancas com uma mísera rachadura.
Diferente de Bruna; não fico intimidado em ficar nu. Ele troca minha roupa e cuida da minha higiene. Não entendo a necessidade de tudo aquilo, afinal não há qualquer vestígio de sujeira, de impureza; de coisas que precisam estar em ordem. Não saio da cama. Já sei: acho que eles fazem isso para que eu me sinta um pouco mais humano. A sopa na boca não existe. As meias nos pés nas noites frias. O banho em dias de calor. Sim, me sinto mais humano por causa disso. Adamastor sai. A noite chega.
Existe alguém ai fora? Estou com insônia. A rachadura me olha.
Quanto tempo se passou desde a última visita de Bruna? Não sei o tempo. Algumas vezes isso me parece bom: essa ignorância dos fatos. Parece que foi ontem que eu sofri o acidente. Ontem eu estava me casando com Letícia. Ontem eu não coloquei nenhuma gota de álcool na boca. Ontem. Ontem. Ontem. Quanto tempo eu estou aqui? Adamastor cortou duas vezes meu cabelo nesse período. Serviço para os homens. O cabelo cresce na velocidade de quando eu estava sadio? As unhas. Como eu disse, a higiene nos aproxima da humanidade. Bruna viria hoje. Pelos meus cálculos, hoje era uma segunda-feira. Que cálculo? Minha cabeça não para de pensar um único minuto, e ao mesmo tempo não pensa em nada.
Bruna entra. Meu dia estava completo.
Se eu ainda sinto medo aqui? Sinto. Muitas vezes os médicos aparecem. Entram sempre com os enfermeiros. Mas dos médicos eu tenho medo. São impessoais. Não me ouvem. Será que eles sabem que eu tenho medo deles? Não falam nada, nadinha. Pegam, puxam, rabiscam a prancheta; olham os medicamentos injetados na veia; vão embora. O único médico quê eu confio é o Doutor Flávio. Consegui ler o seu nome na placa de identificação no jaleco. Doutor Flávio Schuber. Acho que é assim que escreve. Não, tenho certeza que falta uma letra. Esses nomes complicados. Bom, fica assim mesmo. Então, ele conversa comigo; temos um diálogo. Não tão íntimo como entre eu e a Bruna, mas respeitoso.
Então, Bruna pega o meu braço. Ela não está com uma cara boa hoje. Não diz uma única palavra. Ela sai da sala. Deve haver algum problema comigo. Ela volta. Com ela o doutor Flávio. Ele segura o meu braço, examina; apalpa. Como eu gostaria de sentir meu corpo, ele sendo tocado. Não é uma questão sexual, mas uma questão de existir. Flávio também sai da sala. Bruna continua me olhando. Entra outro médico. O tamanho da minha preocupação é proporcional ao número de médicos que entram por aquela porta. O segundo médico ri, mas uma risada serena.
Iriam amputar o meu braço?
Não sei o que os preocuparam tanto. Só sei que depois de alguns dias o meu braço continuava no mesmo lugar e nunca mais falaram sobre isso. Talvez eu nunca saiba o que tenha acontecido naquela segunda-feira. Bruna não disse uma única palavra sobre aquilo. Eu que esperei tanto por aquele dia, fui traído por um braço roxo. Será que era isso? Não pode ser. Ninguém se preocupa com um braço roxo. “Bruna, acredita que eu posso mexer o braço?” Hoje ela não estava acreditando em nada, e eu também. Os médicos se foram, ela continuou o cotidiano de uma segunda-feira. De repente, quando eu achei que nada pudesse acontecer, eis que o meu dia é salvo:
“Briguei com o Carlos. Ora, sabe o que ele aprontou comigo? Você sabe como são os homens, né? Pois é. Ele arrumou um desses passeios idiotas com os amigos. Churrasco e futebol. Num sítio. Acredita? Num sítio. E veio com aquele papo furado: Não pode levar mulher! Faça-me o favor! Duvido que não tenha mulher. Sempre têm essas poderosas que se acham o máximo. Além disso, ele já está enchendo o meu saco! Não sou mulher de ficar me arrastando, não? Mas me conta, e você? Como você está? O seu braço estava horrível, mas foi apenas um susto. Você quietinho ai, aprontando.....”
Não disse o que tinha acontecido, mas pouco importava diante daquele sorriso.
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